Aquilo é grande……só que não

Boa tarde, irmãos.

O título aparentemente é sacana, mas não tem nada a ver com isso…….

Sem delongas, contar um trecho do filme “Cinema Paradiso“, do cinema italiano.

Trata-se da história de Salvatore, um cineasta que cresceu no meio da pobreza em uma cidade pequena da Itália. Ficou órfão de pai, por causa da guerra e tem uma irmã menor. O menino era bem “espoleta”, apaixonado pelo cinema (mas não podia pagar o ingresso) e fez amizade com o operador da câmera do cinema, Alfredo, um homem de idade.

Para não estragar o filme, não direi mais nada, exceto esta história que me chamou a atenção. Alfredo conta a Salvatore que um soldado raso era apaixonado por uma donzela da côrte. Declarou impetamente seu amor, no que ela respondeu:

– Se fores capaz de me esperar 100 dias e 100 noites debaixo da minha varanda, no final da 100a noite serei sua.

Dito isso, o soldado pacientemente sentou-se em um banquinho onde a donzela poderia vê-lo e lá ficou dia após dia, noite após noite. No final da 100a noite, quando a donzela preparar-se-ia para correr aos braços do soldado, este se levantou e foi embora.

Alfredo não explicou o moral dessa breve história.

Mas eu também fiquei louco, assim como qualquer um que deve ter assistido a esse filme. E a síntese de um professor de Matemática é capaz de tirar a graça de muitas coisas belas (risos), mas até tu, leitor(a), deve estar te perguntando: “ora, que diabos?”

Agora, entra o Professor Pajé, com a sua reflexão:

Para o guarda, a mão da donzela (e provavelmente ela toda) era seu maior sonho. Pelos nossos maiores sonhos, somos capazes de tudo, certo? Fugimos da razão, certo? Certo! Cem dias e sem noites seguidas, sem descanso, debaixo de uma sacada foge totalmente do racional (ainda mais na realidade imediatista do século XXI….apenas divagando).

Todavia ao vencer a prova, o guarda percebeu que era capaz de coisas incríveis para conseguir o que queria. Tão incríveis que, sob uma nova perspectiva, a donzela que tanto sacrifício exigiu, passou a ser pouco pra ele. Talvez ele conseguisse coisas mais grandiosas e mostrou a si mesmo sua capacidade. Aquele sonho era grande…..só que não.

E na vida, meus queridos, às vezes acreditamos nisso……quantos de nós não desejam tanto alguma coisa e se sacrificam por ela….Quando vemos, aquilo não parece mais tão suficiente assim para nossa felicidade. Parece que tudo que está longe nos fará feliz e as coisas quando se aproximam, “perdem esse poder”.

Quantos não ganham aquele desejado cargo com gordo aumento de salário e pouco tempo depois ou querem um valor maior ainda ou querem voltar para onde estavam?

Quantos não financiam um carrão em 60 prestações, com salgados juros, pagam apertadamente e, ao quitar, vendem o carro por uma bagatela?

Quantos não matriculam-se por 6 meses numa academia, acreditando ser necessária, e 1 mês depois desistem do programa pela preguiça?

Não pretendo encher o saco de ninguém com essa estória, mas observei como as pessoas estão naquele espírito competitivo constante. Doutorados, prêmios, sucesso, dinheiro, família, saúde, amigos, bens, conquistas são insuficientes. Mal desfrutam do que conquistam e já “orelham” algo mais. A vida deixa de ser uma bela jornada de experiências e passa a ser apenas um contador de feitos. Quanto mais, melhor, não importa a qualidade.

É, não posso estranhar como consultórios psicológicos e psiquiátricos andam cheios………..

Abraços fraternos de luz.

Professor Pajé.

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Medíocre? Talvez! E daí?

Boa tarde, irmãos

A palavra medíocre lembra, para mim, a palavra “média”. Em português, média quer dizer nem acima e nem abaixo do esperado. Matematicamente, uma breve explicação seria:

Imagine uma lista de números, onde pelo menos haja dois distintos entre eles. Agora, como tarefa, vamos alterar esses números (para cima ou para baixo) até que todos eles sejam exatamente iguais, de maneira que a soma de todos eles em momento algum seja alterada. Quando todos os números ficarem iguais, teremos a média.

Isso pode ser feito da seguinte maneira:

dividir a soma desses números pela quantidade de números existentes na referida lista. Simples assim.

Não gosto de usar fórmulas, mas se tu quiser pesquisar no Google, deve encontrar várias referências.

Mas todas as explicações convergem para a explicação de que sermos “médios” em alguma coisa significa que nossa produção naquela coisa está no mesmo nível se todos produzissem igualmente. Ou seja, nossa produção não merece nem xingamento, nem destaque.

Assim, sendo, assumindo a definição de “medíocre” como sendo alguém “médio” (o termo mediano, matematicamente, não é sinônimo de médio: explicação a ser dada em outro post) não é necessariamente pejorativa. Eu estou tentando ser medíocre em muitas coisas, visto que nessas coisas minha produção é abaixo da média. Um dia serei medíocre tocando bombo leguero, vivenciando Ayahuasca, falando espanhol e/ou esperanto ou na arte do Wu Shu Sanda ou até mesmo do Systema. Na escala evolutiva espiritual, um dia serei medíocre.

Todavia, me ofende ser chamado de professor medíocre, já que, pelo que vejo por aí, minha produção de modo algum pode ser considerada média ou abaixo desta. Também me ofenderia dizer que sou jogador de tabuleiro medíocre. Pior ainda: marido, filho, irmão ou amigo medíocre.

Aceitar que somos todos medíocres ou abaixo disso em várias coisas nos dá outra perspectiva. A humildade incentiva o crescimento, quando a mesma não vem acompanhada de baixa auto-estima. Me sinto confortável em aceitar que sou medíocre (ou abaixo disso) e convido a todos a aceitarem-se assim. Mas, ao aceitar isso, o próximo passo é tentar buscar elevar-se nas coisas que considera prioridade. Fica como sugestão: saúde, família, amigos, qualidade de vida e espiritualidade. Mas é tu que deves traçar esse caminho: eu sou medíocre demais para definir como tu deves viver tua vida (aliás, uma experiência espiritual me fez ver que ando querendo o controle de tudo e preciso parar com isso).

Abraços fraternos de luz.

Professor Pajé.

Professor Pesquisador x Professor Executor

Bom dia, irmãos.

Falar um pouco da minha profissão, de professor. Não estou baseando este post em nenhuma teoria científica, mas sim na observação, conversação com colegas e tal.

Embora cada professor seja único, é possível observar dois grandes grupos, que resolvi chamar de PESQUISADORES e EXECUTORES.

O professor PESQUISADOR:

  • Normalmente destaca-se em projetos de Iniciação Científica durante a faculdade;
  • Busca créditos optativos em publicações, eventos, etc;
  • Tenta engatar um mestrado assim que se forma;
  • Tenta engatar o doutorado assim que defende a dissertação;
  • Tem pouca ou nenhuma preocupação em atuar na sala de aula, a menos que seja necessário para sua pesquisa;
  • É um “caçador” de congressos;
  • Aprende a manha de escrever bons artigos;
  • Tem preocupação com seu currículo Lattes;
  • Quando termina um doutorado, tenta uma vaga na universidade federal;
  • Não faz questão de lecionar muitas disciplinas: de preferência somente as relacionadas com sua linha de pesquisa e com foco principal na “caça a orientandos”;
  • Não prioriza boa didática.

O professor EXECUTOR:

  • Normalmente destaca-se nas disciplinas ou nas práticas em sala de aula;
  • Busca créditos optativos em disciplinas mais arrojadas;
  • Tenta colocar-se no mercado antes mesmo de se formar;
  • Dá aula particular direto e busca cursinhos (profissionais ou voluntários) para atuar;
  • Pode até procurar um mestrado logo que se forma, mas sem se pressionar muito;
  • Vai em congressos para aprender coisas novas, mas não se preocupa tanto em publicar trabalhos;
  • Seus artigos, em menor número, normalmente são relatos de experiência;
  • Atualiza o currículo Lattes, mas não se cobra tanto nesse ponto;
  • Vibra com um mestrado profissional e seu sonho é um doutorado também profissional;
  • Não abre mão da sala de aula, a menos que seja realmente necessário;
  • Se for professor de universidade federal, tem sua preferência por disciplinas, mas atua como um professor de escola: mais preocupado com didática do que com futuros orientandos;
  • Talvez participe de projetos de pesquisa, mas normalmente não o faz e quando faz, são de menor vulto;
  • Na universidade, é mais discreto.

Ambos os profissionais são importantes. Graças ao pesquisador, existem materiais de consulta e projetos, tanto teórico quanto práticos, que contribuem para o conhecimento e para o trabalho do professor executor.

Todavia, no cenário acadêmico o professor executor costuma ser discriminado. Não se vê muito a sua importância. Professor executor tem didática boa e pode fazer grande diferença na vida de muitas pessoas. Um professor executor costuma deixar uma boa marca para um grande grupo (ensina bem, se preocupa, é “paizão” ou “maezona”, incentiva, acompanha). Um pesquisador costuma deixar sua marca pelo “conhecimento” e é significativo para um pequeno grupo de alunos que se identifica com sua linha de pesquisa.

Quando me refiro à discriminação, penso apenas nos aspectos da carreira (de modo algum sustento que haja algum tipo de “bullying”).

Em concursos públicos para o magistério federal, um mestrado pode pontuar a mesma coisa do que muitos anos de experiência profissional. O candidato com doutorado, mesmo não indo muito bem na prova teórica e na didática, pode ganhar a vaga pela titulação.

Um doutor recém-ingressante pode iniciar ganhando mais do que um especialista com 20 anos de experiência.

Não creio ser justo um professor executor precisar fazer um doutorado quando não se identifica com a vida acadêmica para ser valorizado pelo seu empenho e dedicação em sala de aula (sem ele, quase todos os professores pesquisadores não existiriam). Felizmente, mudanças estão ocorrendo: mestrados profissionais (talvez, em breve, doutorados), programas que ocorrem durante o verão (para professores atuantes), incentivo à pesquisa aplicada (aquela que é menos teórica e mais voltada para a vida prática) e o incentivo na carreira do EBTT (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) denominado de RSC (Reconhecimento de Saberes e Competências), que gratifica o profissional:

  • RSC I: graduado recebe a retribuição de especialista;
  • RSC II: especialista recebe a retribuição de mestre;
  • RSC III: mestre recebe a retribuição de doutor.

Essa gratificação é condicionada a uma vida profissional diferenciada (isto é: o professor que “se limitou” a “dar aulas” tem poucas chances, mas aquele que publica artigos, vai a congressos, tem experiência, orienta alunos, participa de projetos de pesquisa e extensão, faz cursos é contemplado mediante parecer firmado por 04 pares).

São os pequenos passos que levam ao equilíbrio da balança, permitindo que o profissional possa atuar de acordo com o seu perfil: pesquisador ou executor. E, sempre lembrando, para encerrar, que os rótulos servem apenas para a nossa compreensão: um professor pesquisador pode ser excelente na sala de aula e um professor executor pode ter ótimos artigos e pesquisar. Mas o que defendo aqui é a liberdade de escolha e da construção de caminho, o que no passado não existia, pois o professor pesquisador era uma categoria superior, de fato.

Abraços fraternos de luz.

Professor Pajé (um apaixonado executor! 🙂