Professor e Ensinante

Boa tarde, irmãos.

No episódio “Quadro-Negro”, da série “Carga Pesada” da Rede Globo (passando atualmente no canal Rede Vida da TV por assinatura), o personagem Bino (Stênio Garcia), carreteiro cheio de bondade na alma, está iniciando uma aula informal de alfabetização para adultos da zona rural de algum lugar mais afastado. Na sua aula, ele explica que todos somos capazes de ensinar algo a alguém. Todos somos professores.

Me chama a atenção essa frase: “Todos somos professores”.

A intenção do personagem e do roteirista é muito boa e o ensinamento, em princípio, é PARCIALMENTE verdadeiro. Estou de acordo em que todos temos algo a ensinar e muito mais ainda a aprender. Nascemos, vivemos e morremos ensinando e aprendendo.

Mas precisamos utilizar corretamente os nomes: professor não é simplesmente o que ensina, mas sim professor é o título atribuído ao cidadão QUALIFICADO, reconhecido pela Academia como tal, através de formação pedagógica (licenciatura, pedagogia, aperfeiçoamento e/ou pós-graduação). Vejam bem: professor é TÍTULO, além de profissão.

A formação para ser professor vai muito mais além do que o conhecimento a ser ensinado. Na sua bagagem de formação, um aspirante a professor estuda filosofia, sociologia, ações inclusivas, psicologia, didática, ensino-aprendizagem, pedagogia, entre outras ciências importantes e essenciais para o exercício correto da profissão e o merecimento do título e do respeito (e obrigações) que o acompanham.

Há muitas discussões na Internet quanto ao uso incorreto da palavra DOUTOR por parte de muitos profissionais, principalmente médicos e advogados, quando não defenderam publicamente uma tese de doutorado. No seriado Law and Order, quando alguém se dirige a um promotor, eles o chamam de “Mr.” ou “Mrs.” ou ainda “Ms” (senhor, senhora e senhorita respectivamente) e a legenda traduz como “Dr.” ou “Dra.”. No Friends, em um específico episódio, o personagem Ross Geller (doutor, com doutorado) em um episódio, que se passa num hospital, se identifica para o médico como “Dr. Geller”. A companheira Rachel diz para ele: “Não fale assim. Aqui é um hospital. Eles usam a palavra Doutor a sério” (risadas ao fundo).

Enfim, na questão de DOUTOR, estou apenas divagando……..

Mas o caso é que PROFESSOR é usado inapropriadamente também……Professor é quem tem licenciatura (uma comunidade do antigo Orkut) e, sim, de fato assim o é. Pois o professor tem uma responsabilidade de não apenas o saber em si, mas sim a de saber transmitir para muitas pessoas ao mesmo tempo (e quase sempre a maioria desinteressada nessa transmissão). Quem prepara o profissional é a Licenciatura: é para isso que ela está aí. Os bacharéis, por exemplo, têm uma bagagem de conhecimento maior, porém não receberam o mesmo preparo.

Há muitas pessoas que questionam o conteúdo das disciplinas de caráter educacional das licenciaturas. Mas aí é outro problema: como melhorar as licenciaturas? Qual o curso que é perfeito? Até a idolatrada Medicina é questionada……..E o questionamento é saudável para o aperfeiçoamento das ciências e dos profissionais.

Antes que me digam que são apenas palavras, eu tenho uma teoria: o uso negligente da palavra PROFESSOR não seria uma “explicação” cultural para o desprezo por parte de Governo, sociedade e mídia por essa profissão? Vale refletir.

E, para encerrar, quero dizer que os que ensinam sem ter a referida formação NÃO SÃO INFERIORES DE NENHUM MODO. Seus conhecimentos são importantes e fundamentais. Seu exercício profissional merece respeito, todavia vocês têm que escolher outro nome para o seu ofício: instrutor, orientador, conferencista, oficineiro, facilitador, focalizador, ensinante, treinador.

PROFESSOR é quem tem licenciatura. DOUTOR é quem tem doutorado.

Abraços do

Professor Pajé.

Obs:

Antes que alguém questione: tu não é Pajé e se apresenta nos posts como tal. Minha réplica: justifico-me pelo respeito e admiração que dirijo a todos os xamãs e pajés, os quais considero como meus guias e norteadores de vida. A cultura indígena, tão rica e ao longo dos séculos massacrada pelo colonizador, tem a minha homenagem, carinho e respeito. Inclino-me perante sua sabedoria. Nunca afirmei que sou um pajé ou algo semelhante.

Já o Professor, como sou licenciado e mestre em ensino de Matemática, não preciso nem ao menos justificar, né?

 

 

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Professor Pesquisador x Professor Executor

Bom dia, irmãos.

Falar um pouco da minha profissão, de professor. Não estou baseando este post em nenhuma teoria científica, mas sim na observação, conversação com colegas e tal.

Embora cada professor seja único, é possível observar dois grandes grupos, que resolvi chamar de PESQUISADORES e EXECUTORES.

O professor PESQUISADOR:

  • Normalmente destaca-se em projetos de Iniciação Científica durante a faculdade;
  • Busca créditos optativos em publicações, eventos, etc;
  • Tenta engatar um mestrado assim que se forma;
  • Tenta engatar o doutorado assim que defende a dissertação;
  • Tem pouca ou nenhuma preocupação em atuar na sala de aula, a menos que seja necessário para sua pesquisa;
  • É um “caçador” de congressos;
  • Aprende a manha de escrever bons artigos;
  • Tem preocupação com seu currículo Lattes;
  • Quando termina um doutorado, tenta uma vaga na universidade federal;
  • Não faz questão de lecionar muitas disciplinas: de preferência somente as relacionadas com sua linha de pesquisa e com foco principal na “caça a orientandos”;
  • Não prioriza boa didática.

O professor EXECUTOR:

  • Normalmente destaca-se nas disciplinas ou nas práticas em sala de aula;
  • Busca créditos optativos em disciplinas mais arrojadas;
  • Tenta colocar-se no mercado antes mesmo de se formar;
  • Dá aula particular direto e busca cursinhos (profissionais ou voluntários) para atuar;
  • Pode até procurar um mestrado logo que se forma, mas sem se pressionar muito;
  • Vai em congressos para aprender coisas novas, mas não se preocupa tanto em publicar trabalhos;
  • Seus artigos, em menor número, normalmente são relatos de experiência;
  • Atualiza o currículo Lattes, mas não se cobra tanto nesse ponto;
  • Vibra com um mestrado profissional e seu sonho é um doutorado também profissional;
  • Não abre mão da sala de aula, a menos que seja realmente necessário;
  • Se for professor de universidade federal, tem sua preferência por disciplinas, mas atua como um professor de escola: mais preocupado com didática do que com futuros orientandos;
  • Talvez participe de projetos de pesquisa, mas normalmente não o faz e quando faz, são de menor vulto;
  • Na universidade, é mais discreto.

Ambos os profissionais são importantes. Graças ao pesquisador, existem materiais de consulta e projetos, tanto teórico quanto práticos, que contribuem para o conhecimento e para o trabalho do professor executor.

Todavia, no cenário acadêmico o professor executor costuma ser discriminado. Não se vê muito a sua importância. Professor executor tem didática boa e pode fazer grande diferença na vida de muitas pessoas. Um professor executor costuma deixar uma boa marca para um grande grupo (ensina bem, se preocupa, é “paizão” ou “maezona”, incentiva, acompanha). Um pesquisador costuma deixar sua marca pelo “conhecimento” e é significativo para um pequeno grupo de alunos que se identifica com sua linha de pesquisa.

Quando me refiro à discriminação, penso apenas nos aspectos da carreira (de modo algum sustento que haja algum tipo de “bullying”).

Em concursos públicos para o magistério federal, um mestrado pode pontuar a mesma coisa do que muitos anos de experiência profissional. O candidato com doutorado, mesmo não indo muito bem na prova teórica e na didática, pode ganhar a vaga pela titulação.

Um doutor recém-ingressante pode iniciar ganhando mais do que um especialista com 20 anos de experiência.

Não creio ser justo um professor executor precisar fazer um doutorado quando não se identifica com a vida acadêmica para ser valorizado pelo seu empenho e dedicação em sala de aula (sem ele, quase todos os professores pesquisadores não existiriam). Felizmente, mudanças estão ocorrendo: mestrados profissionais (talvez, em breve, doutorados), programas que ocorrem durante o verão (para professores atuantes), incentivo à pesquisa aplicada (aquela que é menos teórica e mais voltada para a vida prática) e o incentivo na carreira do EBTT (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) denominado de RSC (Reconhecimento de Saberes e Competências), que gratifica o profissional:

  • RSC I: graduado recebe a retribuição de especialista;
  • RSC II: especialista recebe a retribuição de mestre;
  • RSC III: mestre recebe a retribuição de doutor.

Essa gratificação é condicionada a uma vida profissional diferenciada (isto é: o professor que “se limitou” a “dar aulas” tem poucas chances, mas aquele que publica artigos, vai a congressos, tem experiência, orienta alunos, participa de projetos de pesquisa e extensão, faz cursos é contemplado mediante parecer firmado por 04 pares).

São os pequenos passos que levam ao equilíbrio da balança, permitindo que o profissional possa atuar de acordo com o seu perfil: pesquisador ou executor. E, sempre lembrando, para encerrar, que os rótulos servem apenas para a nossa compreensão: um professor pesquisador pode ser excelente na sala de aula e um professor executor pode ter ótimos artigos e pesquisar. Mas o que defendo aqui é a liberdade de escolha e da construção de caminho, o que no passado não existia, pois o professor pesquisador era uma categoria superior, de fato.

Abraços fraternos de luz.

Professor Pajé (um apaixonado executor! 🙂

Aprendi com quem estou falando!

Bom dia, irmãos.

Para este post ter sentido, é necessário visualizar o vídeo que compartilho abaixo, do Prof. Dr. Mário Cortella, teólogo.

Em primeiro lugar, vale a pena dizer que mesmo não sendo um “cristão oficial” (não sou de nenhuma igreja e as mesmas me causam até certa ojeriza), aprendi a admirar, respeitar e compartilhar de pensamentos de alguns teólogos.

(Parênteses para homenagear meu amigo Ruben, doutorando em teologia. Apreciem seu blog As Muitas Letras sem moderação)

 Voltando: quantas vezes não nos encontramos com pessoas que utilizam seus cargos ou titulação profissional para esnobar-se ou, pior, humilhar os outros. Quantos seres humanos não se colocam acima dos outros?

Tanto o Doutor Francisco quanto o Seu Chico têm muito o que contribuir para o mundo com sua sabedoria.

Talvez o Doutor Francisco possa contribuir com seus conhecimentos intelectuais, seus artigos ou livros publicados: é provável que se tenha uma conversa de alto nível com o Doutor Francisco.

Por outro lado, o Seu Chico poderá nos ensinar muito sobre a beleza da Mãe Natureza, do trato com os animais, da magia de alimentar muitos com tão pouco e, principalmente, das virtudes humanas.

O pescador pode explicar sobre as épocas boas de pescar e a moderação para permitir a procriação dos peixes e o Matemático pode enxergar uma equação diferencial nessa explicação.

O fato é único: ninguém tem o direito de subir no pedestal. Todos estamos juntos. Todos somos um. Todos os Humanos são Manos. Todos têm lições para aprender e para ensinar. Todos somos, paralelamente, professores e alunos. Apreciem sem moderação o que os outros têm para contribuir antes de olhar seus diplomas.

Não caia na armadilha de priorizar o “quem disse” ante ao “o que foi dito”.

Abraços fraternos de luz.

Professor Pajé.